O Louco
0 · Arcano Maior · Tarot Rider-Waite-Smith
O Louco caminha perto da beira de um penhasco, o olhar no céu aberto e não no abismo logo abaixo. Leva pouca coisa: uma rosa numa das mãos, uma trouxa amarrada num cajado e um cachorro por companhia.
É alguém que parte sem saber ao certo aonde vai, confiando que o chão aparece conforme se caminha. Fala de recomeços e da vontade de dar o primeiro passo antes de ter todas as respostas. A inocência que ele carrega não é falta de juízo; é abertura para se jogar e aprender pela própria experiência.
A cena, parte por parte
A figura está de perfil, o corpo inclinado para a frente e um pé já adiante do outro. A roupa é clara e bordada, mais de festa do que de estrada, e a cabeça está erguida. Na mão esquerda leva uma rosa branca, segurada solta, sem apertar. Na direita, um cajado apoiado no ombro com uma trouxa pequena amarrada na ponta: tudo o que ele carrega cabe ali.
O sol está atrás dele, alto e cheio, do lado de onde veio. À frente não há nada desenhado além de céu e de montanhas ao longe. Abaixo do pé da frente, o chão termina numa borda de rocha clara, e a carta não mostra a que distância fica o fundo.
O cachorro é a única coisa na cena que não olha para cima. Salta junto ao calcanhar, com a cabeça voltada para o mesmo lado do abismo. O desenho não decide o que ele está fazendo: serve tanto a um aviso quanto a uma comemoração, e quem lê é que escolhe entre os dois.
As 78 cartas deste baralho foram ilustradas por Pamela Colman Smith a partir da concepção de A. E. Waite e publicadas em 1909, e Waite escreveu sobre elas em The Pictorial Key to the Tarot, de 1911. Nada na imagem indica se o passo seguinte encontra chão ou não.
O que a carta põe em jogo
Uma forma de ler O Louco é pelo que ele não traz. Não há mapa, não há bagagem, não há uma segunda pessoa dividindo a decisão. O que sobra na cena é a disposição de sair, e é isso que a carta põe na mesa quando cai numa pergunta.
Repare que ela não responde se a ideia é boa. Ela fala do momento anterior à resposta, aquele em que ainda dá para não ir. Numa pergunta sobre trocar de trabalho, de cidade ou de relação, pode indicar que a informação que falta não vai chegar antes da hora de decidir, e que a escolha real é entre partir sem ela ou não partir.
A rosa e a trouxa dizem coisas diferentes sobre a mesma pessoa: uma mão ocupada com algo bonito e sem utilidade, a outra com o mínimo necessário. É uma leitura possível do preço do passo, que se leva pouco e que parte desse pouco foi escolhida por gosto.
E há o cachorro, que é onde a própria carta admite um contraponto. Alguém ao lado percebe o que você não está olhando. A imagem não diz se é para ouvir; diz que existe.
O zero, e o lugar que ele não tem
O Louco é o único Arcano Maior numerado com zero neste baralho, e zero não é uma posição na fila: é a ausência de uma. As outras 21 cartas vão de I a XXI, e ele fica antes de todas, ou fora de todas, conforme a tradição que se siga.
Aqui, o catálogo o guarda como número 0, que é o que a própria carta imprime. Onde as tradições divergem é no lugar dele na sequência, e este site não trata isso como questão resolvida: a ordem em que as cartas aparecem é a do baralho usado, não uma tese sobre por onde a jornada começa.
Nas duas tiragens que embaralham apenas os 22 Maiores, a Peladan e o Templo de Afrodite, ele entra com o mesmo peso de qualquer outra carta. Não há carta de entrada nem de saída, e o zero não muda a chance de nada.
A relação com O Mundo, o XXI, é a leitura que mais aparece: um abre e o outro fecha. É uma forma de ler a sequência, não uma regra do baralho. Numa tiragem os dois podem cair lado a lado sem que isso obrigue a ler um ciclo inteiro entre eles.
Onde esta carta pode cair
Todo Arcano Maior entra em qualquer tiragem deste baralho, inclusive nas duas que embaralham só os 22.