O Eremita
IX · Arcano Maior · Tarot Rider-Waite-Smith
No alto de uma montanha, o Eremita ergue uma lanterna com uma pequena estrela dentro, iluminando só o próximo passo. Ele se afasta do barulho para procurar dentro de si aquilo que não se acha na correria.
A carta fala de introspecção, de um tempo de recolhimento em que se amadurece e se entende melhor as coisas. Pode ser também o encontro com alguém mais experiente, ou a hora de virar essa referência para outra pessoa.
Uma luz que alcança pouco
A figura está de perfil, encapuzada, com a cabeça baixa e os olhos fechados ou quase. Numa das mãos ergue a lanterna à altura do ombro, na outra apoia um bastão longo. A capa é cinza e cobre tudo, o que faz da lanterna a única coisa clara na carta.
Dentro da lanterna há uma estrela de seis pontas. Não é chama: é uma figura geométrica, desenhada com traço firme, e essa escolha muda o que a luz parece ser.
O chão é de neve e a cena está no alto. Atrás dele não há caminho desenhado, nem à frente. A luz que ele carrega alcança muito pouco espaço, o suficiente para o passo seguinte e nada além.
Ele está sozinho, e é a única carta dos Maiores em que a solidão é o assunto da imagem e não uma circunstância dela. Ninguém o observa, ninguém o espera na cena.
Afastar-se, e o que isso adianta
Uma forma de ler O Eremita é como a carta que troca a velocidade por alcance de vista. Quem sobe deixa de estar onde as coisas acontecem, e ganha o ângulo de quem olha de longe. As duas coisas vêm juntas e a carta não separa uma da outra.
Ela pode indicar um período de recolhimento, uma pausa deliberada, um assunto que precisa ser pensado sozinho antes de ser conversado. Pode indicar também uma pessoa mais velha ou mais experiente que aparece na questão, ou você ocupando esse lugar para alguém.
A leitura difícil está na altura. Montanha é longe de todo mundo, e afastar-se resolve o barulho e cria distância. Numa pergunta sobre uma relação em que alguém se fechou, esse é o ângulo direto que a imagem oferece.
Repare no alcance da lanterna. A carta não promete a resposta inteira, promete enxergar o próximo passo. Numa pergunta que pede um plano completo, isso pode ser lido como uma recusa: não há como ver mais do que isso agora.
Nove, e a virada da sequência
O Eremita é o IX, a última carta antes da Roda da Fortuna. Uma leitura possível dessa vizinhança é a de um contraste de agência: o Eremita escolhe se afastar, e a carta logo em seguida é a que ninguém controla. É forma de ler a sequência, não regra do baralho.
Vale a comparação com A Sacerdotisa, o II, a outra carta dos Maiores que guarda algo sem entregar. Ela está sentada e cercada de símbolo; ele está de pé, no frio, e o que tem na mão é uma lanterna. Uma preserva, o outro procura.
A Peladan tem uma casa que pergunta como você está no meio da questão, e é onde ele cai com mais naturalidade. Uma leitura possível ali é a de alguém que já se retirou do assunto sem ter anunciado.
Na Ferradura, que percorre o assunto do passado ao desfecho com o baralho inteiro, ele aparece bem na casa do que fazer a respeito, e a resposta que ele dá é quase sempre a mesma: esperar com atenção. Essa é uma resposta, ainda que pareça a ausência de uma.
Recolhimento, e o risco de virar fuga
A leitura de introspecção é a mais comum e a mais fiel ao desenho. O que ela costuma deixar de fora é que a carta não distingue, sozinha, entre recolher-se e sumir. As duas coisas se parecem por fora.
Numa pergunta sobre uma relação, essa ambiguidade é justamente o assunto. A carta pode indicar alguém que precisa de tempo, e pode indicar alguém que já saiu sem dizer. A tiragem em volta costuma resolver o que a carta sozinha não resolve.
Há ainda a leitura de mentor, que é legítima e menos lembrada. Repare que a lanterna está erguida à frente e não junto ao corpo: é tanto a posição de quem mostra o caminho a alguém quanto a de quem enxerga o próprio.
Onde esta carta pode cair
Todo Arcano Maior entra em qualquer tiragem deste baralho, inclusive nas duas que embaralham só os 22.