A Roda da Fortuna
X · Arcano Maior · Tarot Rider-Waite-Smith
A Roda gira e leva junto tudo o que sobe e desce com ela. É a carta dos ciclos e das viradas, dos momentos em que a vida muda de rumo por conta de algo maior que a nossa vontade.
Fala de sorte, de fases que começam e terminam, de estar às vezes por cima e às vezes por baixo. Quando aparece, lembra que nada fica parado e que a melhor postura é acompanhar o movimento em vez de brigar com ele.
Uma carta sem chão
A Roda está no céu, e é o único Arcano Maior deste baralho em que não há chão desenhado em lugar nenhum. Tudo flutua sobre nuvens. Essa ausência é o primeiro dado da imagem: não existe ponto de apoio para ninguém.
Nos quatro cantos há quatro figuras aladas, cada uma com um livro aberto: um anjo, uma águia, um touro e um leão. São as únicas coisas paradas da carta, e estão lendo.
Na roda mesma há uma serpente descendo por um lado, uma figura com cabeça de chacal subindo pelo outro e uma esfinge sentada em cima, com uma espada. Um desce, um sobe, um observa do alto.
Repare que a roda não tem eixo preso a nada. Nada na cena explica o que a faz girar, e a carta parece ter sido desenhada exatamente para não explicar.
O que não depende de você
Uma forma de ler A Roda da Fortuna é como a carta que muda o assunto da pergunta. Onde a questão era o que fazer, ela responde sobre o que está acontecendo de qualquer jeito. É uma das poucas cartas do baralho que fala de fora da sua vontade.
Ela pode indicar uma virada, boa ou má, e é honesto dizer que a imagem não escolhe entre as duas. Há uma figura subindo e outra descendo na mesma roda, ao mesmo tempo. O que a carta afirma é o movimento, não a direção.
Numa pergunta sobre algo travado, uma leitura possível é a de que a situação vai destravar sozinha, e que a parte difícil é aguentar até lá. Numa pergunta sobre algo que está bom, a mesma imagem diz que aquilo também não é permanente.
E há a esfinge no topo, que é a única figura da roda que não está nem subindo nem descendo. Uma forma de ler esse detalhe é que existe um lugar de onde se assiste ao giro sem ser levado por ele, e que ele fica no eixo e não na borda.
Dez, e o meio do caminho
A Roda é o X, e nos Arcanos Maiores deste baralho ela marca o ponto em que se completa a primeira dezena. Uma leitura possível é a de que as nove cartas anteriores tratam do que se constrói e que aqui entra o que não se constrói.
As quatro figuras dos cantos são as mesmas que reaparecem em O Mundo, o XXI, a última carta da sequência. São as duas únicas cartas do baralho que as trazem, e o baralho as põe na décima e na última posição.
Nas tiragens de baralho inteiro, como a Ferradura e as três cartas, a Roda cai bem em qualquer casa de tempo, e é uma das cartas que mais empurram a leitura para fora do controle de quem perguntou.
Nas duas que embaralham só Maiores, ela concorre com outras 21 cartas num monte pequeno. Isso a torna proporcionalmente mais provável do que numa tiragem de baralho inteiro, o que é aritmética da tiragem e não sinal de coisa alguma.
Sorte não é a mesma coisa que sentido
A leitura de sorte é a primeira que aparece, e a carta a admite. O que ela não oferece é explicação: nada na imagem informa por que a roda gira, e essa recusa faz parte do desenho.
Numa pergunta sobre um acontecimento difícil, isso importa. A carta descreve a mudança sem dizer que ela tinha um propósito. Ler propósito é escolha de quem lê, e o baralho não a impõe.
O outro deslize é esperar dela uma direção. Há uma figura subindo e outra descendo ao mesmo tempo, e é a carta ao lado dela na tiragem que costuma dizer de que lado da roda a pergunta está.
Onde esta carta pode cair
Todo Arcano Maior entra em qualquer tiragem deste baralho, inclusive nas duas que embaralham só os 22.