O Diabo
XV · Arcano Maior · Tarot Rider-Waite-Smith
Duas figuras aparecem acorrentadas ao pé do Diabo, mas as correntes estão frouxas: elas ficam ali porque, no fundo, escolhem ficar. É a carta dos apegos que prendem, dos vícios, do materialismo e das ilusões que a gente aceita por comodismo.
Fala daquilo que domina você quando você entrega o controle a um desejo ou a um medo. Quando surge, é um lembrete de olhar para essas amarras e perceber que soltar delas costuma ser mais possível do que parece.
As correntes que passam pela cabeça
A figura central está agachada sobre um bloco de pedra, com asas de morcego, chifres e uma tocha virada para baixo numa das mãos. A outra mão está erguida, aberta, no mesmo gesto que O Hierofante faz, e a repetição não parece acidental.
Ao pé do bloco, um homem e uma mulher, ambos com chifres pequenos e cauda. Cada um tem uma coleira de ferro ligada por corrente ao bloco. As coleiras são largas e as correntes estão frouxas o bastante para passarem pela cabeça.
Esse é o detalhe que a carta faz questão de mostrar. Ninguém está amarrado com força. As duas figuras estão presas por algo que sairia sem esforço, e continuam ali.
O fundo é inteiramente preto. Não há paisagem, não há saída desenhada, e a tocha aponta para o chão em vez de iluminar. A única coisa que a cena não oferece é visibilidade.
Acima da cabeça dele há um pentagrama com a ponta virada para baixo. É o único símbolo da carta que ninguém está segurando nem vestindo: está solto no preto, atrás de todos.
O que prende sem trancar
Uma forma de ler O Diabo é como a carta que descreve uma situação em que a saída existe e não é usada. Não é sobre estar preso, é sobre continuar. A diferença entre as duas coisas é o incômodo que a carta traz.
Ela pode indicar dependência de substância, de dinheiro, de status, de uma pessoa, de uma rotina que já não serve. Pode indicar também uma relação em que os dois lados sabem o que está acontecendo e nenhum se mexe.
Vale reparar em como a carta trata a responsabilidade. As correntes estão frouxas, mas quem as pôs ali não foi as figuras acorrentadas. A imagem sustenta as duas coisas ao mesmo tempo: alguém prendeu, e sair é possível.
Numa pergunta sobre desejo, ela não é necessariamente condenação. O que a cena mostra é intensidade sem visibilidade, e uma leitura possível é simplesmente essa: o assunto é forte e você não está enxergando direito.
A mesma armação de Os Amantes
As duas cartas repetem a mesma composição: duas figuras nuas, uma de cada lado, e uma figura maior e alada acima delas. Em Os Amantes, o VI, a figura de cima é um anjo dentro de um sol; aqui, o XV, é uma figura de asas de morcego contra um fundo preto.
A comparação entre as duas é uma das mais citadas deste baralho, e ela existe no desenho, não só na leitura. Nos Amantes, as figuras têm árvores atrás de si; no Diabo, têm caudas e correntes. Mesma armação, outro estado.
Numa tiragem em que as duas caem juntas, uma leitura possível é a de uma mesma relação vista por dois ângulos, ou de uma escolha que virou obrigação. Nada no produto liga uma carta à outra, e essa aproximação é forma de ler.
Numa tiragem de relação com três planos, como o Templo de Afrodite, esta é das cartas que mais mudam de peso conforme onde caem. Pensar, sentir e desejar são coisas distintas, e O Diabo diz algo bem diferente em cada uma das três.
Culpa não é o assunto
Uma leitura frequente transforma O Diabo em julgamento moral sobre quem perguntou. A imagem não faz isso: ela mostra correntes frouxas e duas figuras que ficam, e mostrar não é condenar.
Numa pergunta sobre um hábito ou uma relação, a diferença é prática. Ler culpa leva a se defender; ler apego leva a olhar para o que a situação está dando em troca, que é o que mantém alguém ali.
O outro deslize é ler a carta como força externa. Ninguém na cena está segurando as figuras, e que a única coisa que as prende passaria pela cabeça sem esforço nenhum.
Onde esta carta pode cair
Todo Arcano Maior entra em qualquer tiragem deste baralho, inclusive nas duas que embaralham só os 22.