O Pendurado
XII · Arcano Maior · Tarot de Marselha
Pendurado por um pé entre duas árvores de galhos cortados, com as mãos para trás, o personagem não age sobre o mundo: ele se entrega.
O Pendurado fala de abnegação, de dedicação desinteressada, da renúncia ao próprio interesse em nome de uma causa maior e de uma vida interior intensa. O mesmo idealismo tem seu preço: sonho sem senso prático, entusiasmo alimentado de ilusão, planos generosos que não saem do papel, talento que concebe e não realiza, e afeto sem retorno.
De cabeça para baixo, preso a uma trave
Na edição de Claude Burdel, de 1751, a carta traz escrito LE PENDV, com o V no lugar do U. Um rapaz de cabelo claro está de cabeça para baixo, amarrado pelo tornozelo a uma trave que liga duas árvores. Dos troncos saem só tocos de galhos cortados.
A perna livre se dobra por trás da outra, e os braços estão para trás das costas. O casaco, abotoado de alto a baixo, cai sobre o peito, e o cabelo pende na direção do chão. Nada na postura indica esforço para se soltar.
Oswald Wirth, em Le Tarot des imagiers du Moyen Âge, de 1927, lê um desenho nessa posição. As pernas cruzadas formam uma cruz acima de um triângulo de ponta para baixo, desenhado pelos braços e pela cabeça, e o conjunto é o contrário do sinal que ele via no Imperador: lá, o fogo concentrado em si; aqui, a entrega.
O rapaz do Mago, agora amarrado
Wirth divide o tarô em duas maneiras de avançar. As onze primeiras cartas, do Mago à Força, descrevem quem cultiva as próprias forças e chega ao domínio de si. Com o XII começa outro caminho, em que a pessoa renuncia a esse domínio e se deixa conduzir pelo que age sobre ela.
Para marcar a passagem, diz Wirth, o Pendurado parece ser o mesmo personagem do Mago: o rapaz louro e ágil da primeira carta, agora preso pelo pé e com as mãos imobilizadas. O contraste entre o prestidigitador hábil com os dedos e o supliciado que não pode usá-los é o que ele faz questão de sublinhar.
Uma forma de ler O Pendurado a partir daí é como a troca de agir por entregar-se. Numa pergunta em que tudo parece depender de força de vontade, a carta pode indicar que a resposta vem de outro lado: esperar, ceder ou se pôr a serviço de algo que não se controla.
Uma trave que sustenta a pessoa inteira
Wirth dá à trave um sentido preciso: é a doutrina que o Pendurado fez sua, a ponto de ficar suspenso nela com o corpo todo. Um ideal alto, diz ele, e alto demais para ser posto em prática pela maioria das pessoas.
Ele insiste que não se trata de um crente cego. O Pendurado seria alguém que percebeu a vaidade das ambições pessoais e escolheu se esquecer de si. E, como a cabeça aponta para a terra e não para o céu, Wirth conclui que as preocupações dele são terrenas: a dedicação é ao bem dos outros, e não à própria salvação.
Numa pergunta sobre um trabalho voluntário, um cuidado com alguém ou um projeto feito para os outros, a carta costuma descrever uma entrega real. O que ela não diz é quanto essa entrega custa a quem a faz, e isso as cartas vizinhas é que ajudam a ver.
Quando a generosidade fica só no plano
A lista de sentidos que Wirth dá à carta começa pela perfeição moral, pela abnegação, pela dedicação e pelo sacrifício voluntário por uma causa elevada. Na mesma lista estão o utopista, o sonhador perdido nas nuvens e sem senso prático, o entusiasta alimentado de ilusão, o artista que concebe o belo e não consegue realizá-lo, os projetos irrealizáveis e os votos generosos que não dão fruto.
As duas metades são o mesmo gesto visto de lados diferentes. Quem se entrega a um ideal pode estar dando o melhor de si, ou pode estar suspenso nele, longe do chão onde as coisas se fazem.
Numa pergunta sobre uma relação, a carta pode descrever quem dá mais do que recebe, sem dizer nada sobre o que a outra pessoa sente. A pergunta que ela costuma deixar é quanto dessa entrega é escolha, e quanto é espera.
O exemplo que Wirth dá para a soma
No capítulo em que descreve o método de Péladan, Wirth explica como se chega à quinta carta: somam-se os números das quatro primeiras e, se o total passar de 22, somam-se os dois algarismos. O exemplo que ele escolhe é 57, que dá 5 + 7 = 12, o Pendurado.
A Peladan de Marselha deste site usa a mesma regra. O XII sai como Síntese quando as quatro cartas escolhidas somam 12, 39, 48, 57, 66 ou 75.
A casa da Síntese pergunta como você está diante da questão. Quando o Pendurado cai ali, uma leitura frequente é a de alguém suspenso no meio dela, e a dúvida que fica é se essa suspensão é uma entrega escolhida ou uma espera que ainda não se decidiu.
Onde esta carta pode cair
Todo Arcano Maior entra em qualquer tiragem deste baralho, inclusive na que embaralha só os 22.
Os Arcanos Maiores costumam concentrar os temas mais amplos. Leve a sua pergunta para uma leitura.
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