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A Morte

XIII · Arcano Maior · sem nome no baralho de Burdel

O arcano treze não traz nome impresso: nele, um esqueleto ceifa um campo onde ainda brotam plantas.

Ele é o princípio que renova tudo e não deixa nada parado, o fim que se faz necessário para que outra coisa comece. Fala de desapego, de transformação profunda e do fim das ilusões: ver a realidade sem enfeite, com lucidez firme. Também pode trazer um revés que não dependeu de quem o sofre, o peso do que vem de gerações anteriores e a melancolia de um ciclo que se encerra.

O único Maior sem nome

Na edição de Claude Burdel, de 1751, esta é a única entre os 22 Arcanos Maiores que não traz nome. A XIII tem o número no alto, e embaixo não há faixa: o desenho desce até a borda, ocupando o lugar onde as outras escrevem o nome.

O desenho mostra um esqueleto que avança curvado, segurando a foice com as duas mãos. A lâmina corre rente ao chão de um campo verde, cheio de brotos. Na terra aparecem duas cabeças, uma em cada canto de baixo, e duas mãos que saem do solo.

Oswald Wirth, em Le Tarot des imagiers du Moyen Âge, de 1927, trata a falta do nome como proposital. Para ele, os desenhistas pareciam não querer chamar de morte aquela figura, como se não acreditassem nem na morte nem no nada: o que existe muda de aspecto, mas não se destrói.

Ossos da cor da pele, cabeças que continuam vivas

Um detalhe do Burdel lembra o que Wirth observa na lâmina que comenta: os ossos do esqueleto não são brancos. Têm a cor da pele, com partes em azul e vermelho. Wirth lê nisso algo humano e sensível, e pergunta se a fatalidade que dissolve as formas teria mesmo toda a crueldade que se atribui a ela.

As cabeças e as mãos na terra recebem dele a mesma leitura. As cabeças conservam a expressão, como se ainda vivessem, e as mãos que saem do chão estão prontas para agir. A obra de quem desaparece, diz Wirth, não se interrompe: nada cessa, tudo continua.

O campo também conta. A foice corta, mas o chão em volta está cheio de plantas nascendo. É a imagem de um fim que abre espaço, e não de uma terra arrasada.

Morrer para o modo habitual de pensar

Wirth tira da carta uma lição que não tem nada de fúnebre. O sábio, diz ele, procura morrer o tempo todo para viver melhor, e isso não pede ascetismo nenhum. Pede romper com os preconceitos de estimação e morrer para o próprio jeito habitual de pensar, condição para chegar a um julgamento livre.

Para ele, a Morte não mata: dissolve o que já não consegue viver e libera as forças presas ali. Sem ela, tudo definharia, e a vida acabaria parecida com a imagem que se faz da morte.

Uma leitura frequente trata a carta como o fim de uma fase, e não como anúncio literal. Numa pergunta sobre um trabalho, uma relação ou uma convicção antiga, ela costuma indicar que algo terminou ou precisa terminar para outra coisa começar.

Lucidez, e também o que não se escolheu

A lista de sentidos que Wirth dá ao XIII inclui a transformação, a renovação e a libertação, e também a desilusão, a percepção da realidade despida de enfeite e a lucidez absoluta de julgamento. É uma carta que tira o véu, e por isso pode ser dura.

A mesma lista traz o fim necessário, o fracasso de que a vítima não é responsável, a herança e o peso do que vem das gerações anteriores, e ainda a melancolia e o luto. O catálogo guardou essa parte com cuidado: um revés que não dependeu de quem o sofre.

Numa pergunta sobre uma perda que não se escolheu, a carta pode indicar exatamente isso, e não uma culpa. Numa pergunta sobre um padrão que se repete na família, pode apontar para o que foi herdado e ainda pede para ser encerrado.

Do fogo do Imperador à água da Temperança

Wirth põe a Morte em correspondência com o Imperador, o IV. O Imperador é o fogo interior que anima cada ser, e esse fogo queima à custa de reservas que se esgotam. O que se chama de morte, diz ele, é o fim desse processo, e na verdade não apaga nada: solta o que estava preso numa matéria cada vez mais inerte.

Ele também lê a Morte como a primeira de três cartas seguidas. O XIII gera a renovação da vida; a Temperança, o XIV, mostra essa vida circulando de um vaso para outro; e o Diabo, o XV, mostra a mesma vida acumulada. Lida nessa sequência, a Morte é começo tanto quanto fim.

Onde esta carta pode cair

Todo Arcano Maior entra em qualquer tiragem deste baralho, inclusive na que embaralha só os 22.

Os Arcanos Maiores costumam concentrar os temas mais amplos. Leve a sua pergunta para uma leitura.

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