A Força
XI · Arcano Maior · Tarot de Marselha
Com as mãos e sem esforço aparente, uma mulher abre a boca do leão.
A Força é a energia interior que doma os impulsos pela calma, unindo razão e sentimento. Fala de coragem, serenidade diante do que assusta, força moral que se impõe à brutalidade e trabalho ativo e bem conduzido. Quando essa energia escapa do controle, ela vira o próprio leão: impaciência, raiva, temeridade, bravata, aspereza e dureza com os outros.
As duas mãos sobre o focinho
Na Força de Burdel, de 1751, a figura está de pé, de chapéu de abas largas, manto vermelho e vestido azul. Inclina-se sobre um leão sentado ao lado dela e põe as duas mãos sobre o focinho do animal: uma apoiada na cabeça, a outra segurando a borda de cima da boca, que está aberta. O leão tem a juba espessa e os dentes à mostra, mas continua sentado.
Nada na cena indica luta. A figura não tem arma, não está em guarda, e o rosto dela está calmo. É o contraste que dá sentido à carta: a força está do lado de quem parece não fazer força.
Oswald Wirth, em Le Tarot des imagiers du Moyen Âge, de 1927, começa o capítulo por esse ponto. A carta, diz ele, se afasta das imagens comuns da força como virtude, a de um Hércules apoiado na clava. O que ela celebra não é o músculo, é uma potência que vence pela calma e pela sutileza, mais irresistível do que qualquer explosão de raiva.
Domar o leão, e não matá-lo
Para Wirth, o leão não é um bicho mau. Solto, ele toma, devora e destrói; domado, presta serviços imensos a quem sabe conduzi-lo. Por isso não há motivo para matar o animal, nem dentro de si, como fazem os ascetas.
Ele lembra Gilgamesh, que aperta o leão contra o peito depois de atordoá-lo, sem sufocá-lo. E tira daí uma regra: os instintos menos nobres são o estímulo necessário de toda ação, e o que é baixo não deve ser destruído, e sim transformado, como o chumbo que o alquimista tenta levar à dignidade do ouro.
Numa leitura, a carta costuma falar dessa transformação. Numa pergunta sobre raiva, medo ou impulso, pode indicar que a saída não é suprimir o que se sente, e sim conduzir essa força para onde ela serve.
As cartas que a Força reúne
Wirth vê na domadora a união de duas cartas anteriores. Ela tem a inspiração da Imperatriz, o III, e age segundo a ordem da Justiça, o VIII. E faz a conta ele mesmo: 3 + 8 = 11.
Ele lê também as cores. A domadora veste azul e vermelho, como a Papisa, mas o azul claro é o da Imperatriz, e o verde aparece nas mangas junto com o amarelo. No Burdel, o vestido é azul, o manto é vermelho, e o verde e o amarelo aparecem nas mangas, como ele descreve.
O chapéu é outro elo. Wirth aponta que a forma dele repete a do chapéu do Mago, o I, e que o sinal volta no fim da primeira fileira de onze cartas. Na edição de Burdel, basta pôr as duas cartas lado a lado para ver a aba larga se repetir de uma cabeça para a outra.
Uma forma de ler essa volta é como o fim de um percurso. O Mago tinha a capacidade; a Força mostra essa capacidade já disciplinada, exercida sobre o que antes a dominava.
A Força que é XI aqui e VIII no Rider-Waite
O Rider-Waite-Smith, o outro tarot deste site, também tem uma carta chamada A Força, com uma mulher e um leão, e lá ela é o VIII. A Justiça faz a troca inversa: é o VIII em Marselha e o XI no Rider-Waite. A carta de Burdel traz o XI impresso, e Wirth, que segue essa ordem, a põe no fim da primeira fileira de onze.
A diferença pesa na Peladan de Marselha, em que a Síntese sai da soma das quatro cartas escolhidas. Escolhida, a Força soma 11. E, junto com a Roda da Fortuna, é a única carta do I ao XI que pode ser a Síntese direto, sem redução: basta que as quatro cartas somem exatamente 11.
No Rider-Waite, a Peladan sorteia as cinco cartas e nenhuma soma é feita. Quem procura a Força do outro baralho a encontra no endereço dele, que traz o nome do baralho antes do nome da carta.
Onde esta carta pode cair
Todo Arcano Maior entra em qualquer tiragem deste baralho, inclusive na que embaralha só os 22.
Os Arcanos Maiores costumam concentrar os temas mais amplos. Leve a sua pergunta para uma leitura.
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