O Enamorado
VI · Arcano Maior · Tarot de Marselha
Um jovem está entre duas mulheres, e do alto o Cupido aponta a flecha.
O Enamorado é a hora de escolher. Fala de afeto, das simpatias e antipatias, do que atrai e do que afasta, e da liberdade de decidir para onde ir. É também prova e tentação, porque cada caminho promete uma coisa diferente. Quando a escolha não se faz, vem a indecisão: sentimentos divididos, promessas no ar, assuntos pendentes e desejos que não chegam a se realizar.
Duas mãos sobre o mesmo rapaz
No baralho que Claude Burdel fez em 1751, a carta se chama L’AMOVREVX. No centro está um rapaz de cabelo claro e túnica verde. De um lado, uma figura com coroa de louros apoia a mão no ombro dele; do outro, uma figura com uma grinalda de flores pousa a mão no peito dele. O rapaz não segura nenhuma das duas.
Acima dos três, dentro de um sol de raios vermelhos e amarelos, um menino alado estica o arco. A flecha aponta para baixo, na direção do rapaz.
O desenho não diz para qual lado ele vai. Os dois gestos são de chamada, e ele está parado entre eles. É essa suspensão, mais do que o arqueiro, o que a carta põe no centro.
Hércules parado na encruzilhada
Oswald Wirth, em Le Tarot des imagiers du Moyen Âge, de 1927, parte de um mito para ler a carta. Terminada a educação, Hércules se retira para pensar no que fará da vida, e duas mulheres aparecem para ele. Uma promete uma existência de luta e esforço; a outra, uma vida tranquila, gozando o que houver de bom.
O VI, para Wirth, mostra um jovem na mesma situação, parado onde dois caminhos se separam, sem saber qual seguir. Ele identifica as duas figuras como uma rainha austera, que só promete satisfações morais, e uma bacante, que oferece prazeres fáceis.
A diferença que Wirth faz questão de marcar é que o Enamorado não é Hércules. A escolha dele não está decidida de antemão. É alguém comum, sujeito a todas as tentações e dividido no que sente, e é por isso que a carta fala de qualquer pessoa diante de uma decisão, e não de um herói que já sabe o que fazer.
A flecha espera que alguém queira
Wirth dá ao arqueiro um papel preciso. O Cupido guarda a força da vontade acima de nós e dispara a flecha quando damos o sinal, isto é, quando de fato queremos. Se a vontade é gasta à toa, em muitas direções, a flecha sai fraca.
No fim do capítulo, Wirth compara três maneiras de querer. O Imperador ordena, de forma impetuosa; o Papa quer com doçura e paciência, e se impõe pela moderação; o Enamorado apenas deseja com intensidade, e o afeto absorve a vontade dele. Nessa leitura, é a mais fraca das três como comando e a mais intensa como desejo.
Lida assim, a carta não descreve alguém atingido por um sentimento que caiu do céu. Descreve o momento anterior, em que a decisão ainda depende de quem está no meio da cena.
Numa pergunta sobre uma relação, O Enamorado costuma falar mais de escolha do que de sentimento correspondido. Pode indicar afeto verdadeiro, e também uma dúvida sobre o caminho a seguir, sem dizer nada sobre o que a outra pessoa sente ou pretende. Numa pergunta sobre trabalho, mudança ou estudo, a leitura frequente é a de duas opções que prometem coisas diferentes, e de um custo em adiar a escolha.
Escolhas adiadas, escolhas por fazer
A lista de sentidos que Wirth dá à carta começa pela beleza moral, pelo amor e pelos afetos, passa pela liberdade, pela escolha e pelo livre-arbítrio, e chega à tentação, à dúvida e à hesitação. No fim estão o sentimentalismo, a perplexidade, a indecisão, os assuntos que ficam em suspenso, as promessas e os desejos que não se realizam.
Numa Três Cartas, uma leitura frequente muda com a casa. Em Passado, costuma falar de uma escolha que ficou para trás e ainda pesa; em Futuro, de uma decisão que se aproxima. Na Ferradura, na casa O que fazer, a carta tende a devolver a pergunta: o que se pede é decidir.
Um enamorado no singular
O outro tarot deste site, o Rider-Waite-Smith, chama o VI de Os Amantes. No Tarot de Marselha de Burdel, o nome está no singular, e o centro da carta é uma pessoa diante da escolha.
Wirth leva o singular a sério. Para ele, o Enamorado é o próprio Mago sob outro aspecto: o princípio ativo do I, que no VI volta à unidade pelo afeto. Uma forma de ler a ligação é pensar que a iniciativa do Mago, aqui, passa a depender do que se ama.
Onde esta carta pode cair
Todo Arcano Maior entra em qualquer tiragem deste baralho, inclusive na que embaralha só os 22.
Os Arcanos Maiores costumam concentrar os temas mais amplos. Leve a sua pergunta para uma leitura.
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