O Papa
V · Arcano Maior · Tarot de Marselha
Com a mão erguida diante de dois ouvintes, o Papa ensina.
Ele é a consciência que orienta a conduta: o dever, a lei moral e a sabedoria de se conter antes de agir. Fala de ensino, de conselho, de uma voz respeitada que responde às dúvidas com segurança e bondade, e de um cargo que traz prestígio. No lado difícil, a certeza vira dogma: opiniões absolutas, sermão no lugar de escuta, influência que já não se pergunta se tem razão e, no extremo, a moral pregada e não vivida.
Dois dedos erguidos e uma cruz de três travessas
Na carta de Claude Burdel, de 1751, o Papa está sentado entre duas colunas, com barba branca e uma tiara alta, de coroas sobrepostas. Uma das mãos se ergue com dois dedos estendidos, no gesto de quem fala ou abençoa. A outra, de luva azul, segura um bastão que termina numa cruz com três travessas.
Na parte de baixo da carta, de costas para quem a olha, estão duas figuras menores. São os ouvintes a quem o gesto se dirige, e é por eles que a cena deixa de ser um retrato e vira uma aula.
No livro de 1927, Le Tarot des imagiers du Moyen Âge, Oswald Wirth lê o três como a chave dos atributos: as três coroas da tiara e as três travessas da cruz indicam, para ele, uma ação espiritual que se exerce em três planos. Explica cada coroa. A de baixo é o conhecimento do culto e dos ritos; a do meio, um pouco mais larga, o conhecimento da lei que permite avaliar os atos humanos; a de cima, a menor e mais simples, o discernimento das verdades abstratas. A luva, no desenho que ele comenta, marca que as mãos do Papa não se sujam com os negócios do mundo.
Um ouvinte que examina e outro que aceita
Wirth dá atenção especial aos dois ouvintes. No desenho que ele comenta, um levanta a cabeça e abre os braços, como quem diz que entendeu; o outro inclina a testa sobre as mãos juntas e aceita o ensinamento com humildade. No Burdel os dois estão de costas, e o gesto de cada um não se vê.
A leitura que Wirth faz deles é de duas maneiras de receber uma doutrina: examinando o que se ouve ou aceitando sem exame. E ele toma partido: para Wirth, um ensinamento que conta só com o segundo tipo de ouvinte fica manco, porque perde justamente quem faria a tradição continuar viva.
Uma forma de trazer isso para uma leitura é perguntar de que lado da cena está quem pergunta. Pode estar no lugar de quem ensina, de quem questiona ou de quem só concorda, e a carta tende a pesar diferente em cada caso.
A força de quem sabe se conter
O sentido que Wirth dá ao V começa pela consciência, pelo dever e pela lei moral, e inclui o que ele chama de inibição: abster-se de fazer o mal antes de se dedicar a fazer o bem. É uma carta de freio, antes de ser uma carta de ação.
No mesmo capítulo, ele escreve que, para dispor de uma força, é preciso saber retê-la, e que não querer fora de hora é o segredo de quem precisa ter influência no momento decisivo. O Papa, nessa leitura, não é quem manda mais alto, e sim quem guarda a palavra para quando ela vai pesar.
Numa pergunta sobre uma decisão difícil, a carta pode indicar a busca de um conselho respeitado, ou lembrar que já existe um critério de conduta para seguir. Numa pergunta sobre ensinar, orientar ou assumir um cargo, costuma falar de responsabilidade junto com o prestígio.
Quando o conselho vira sermão
Na lista de Wirth, o mesmo personagem que é orientador de consciências e médico da alma é também sentencioso e absoluto nas próprias opiniões. A segurança de quem responde às dúvidas pode virar a incapacidade de ter alguma.
Numa leitura, esse lado costuma aparecer como sermão no lugar de escuta, ou como regra repetida por hábito, sem que ninguém se pergunte mais se ela serve. A carta não diz qual dos dois papas está na situação; a tiragem em volta é que ajuda a ver.
O Júpiter de Besançon e o Hierofante
Wirth conta que em Besançon o Papa foi trocado por Júpiter nas cartas, e o outro tarot deste site, o Rider-Waite-Smith, chama o V de O Hierofante. No Tarot de Marselha de Burdel, ele segue com a tiara.
Wirth acha as cartas de Besançon de pouco interesse como desenho, mas não como sentido. O Júpiter que tomou o lugar do Papa, diz ele, é quem mantém a consciência desperta para fazer reinar a ordem, a justiça, a afabilidade e a bondade, e por isso o caráter do deus concorda com o V.
Onde esta carta pode cair
Todo Arcano Maior entra em qualquer tiragem deste baralho, inclusive na que embaralha só os 22.
Os Arcanos Maiores costumam concentrar os temas mais amplos. Leve a sua pergunta para uma leitura.
Tirar com o Tarot de Marselha