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O Diabo

XV · Arcano Maior · Tarot de Marselha

Sobre um pedestal, uma figura de asas de morcego mantém duas criaturas menores presas por uma corda.

O Diabo é a força vital em estado bruto: o instinto, o impulso que vem de baixo e o poder de fascinar e arrastar os outros pela palavra e pelo magnetismo pessoal. Bem usada, é energia e capacidade de mobilizar. Mal usada, vira manipulação, intriga, meios ilícitos, cobiça, desejo que manda, excitação desmedida e desordem.

Asas de morcego e duas cordas presas num anel

Na carta de Claude Burdel, de 1751, a figura central está de pé sobre um pedestal redondo. Tem asas de morcego, um capacete de onde saem chifres ramificados e um sorriso largo. Uma das mãos se ergue aberta; a outra segura um bastão com uma chama na ponta.

Aos pés dela, uma de cada lado, estão duas criaturas menores, nuas, de orelhas pontudas e galhos na cabeça, com as mãos na cintura. Cada uma tem uma corda no pescoço, e as duas cordas descem até um anel preso na frente do pedestal.

Oswald Wirth, em Le Tarot des imagiers du Moyen Âge, de 1927, comenta um desenho mais carregado de símbolos de ocultismo, e muito do que ele diz sobre esses símbolos não tem correspondente no Burdel. O que atravessa os dois desenhos é a leitura geral: a figura de cima e as duas de baixo formam um conjunto só.

O impulso que faz cada um puxar para si

Wirth começa pela ideia de uma vida comum a todos os seres, que correria tranquila de um para outro, como na Temperança, a carta anterior. O Diabo é o que perturba essa corrente: o impulso de cada ser de trazer a vida para si e de se pôr no centro de tudo. Ele o chama de egoísmo radical.

Em nota, Wirth distingue o Diabo do Imperador, o IV, que ele também chamou de príncipe deste mundo. O Imperador reina de forma legítima sobre o que tem corpo; o Diabo é um usurpador, e cabe a cada um sacudir o jugo dele.

Lido assim, O Diabo é a força que fixa, prende e acumula. Numa pergunta sobre um hábito, uma dependência ou uma situação da qual parece impossível sair, a carta costuma descrever justamente essa força.

Não tão negro quanto o pintam

Wirth não trata o Diabo como inimigo a destruir. Escreve que ele não é tão negro quanto o pintam: é o associado inevitável de quem vive neste mundo, e deve ser tratado com justiça, como um subordinado cujos serviços são preciosos. É dele que vêm o desejo de existir e o instinto de conservação.

Os impulsos, para Wirth, não são maus em si. O que se torna diabólico é a desarmonia entre eles. O orgulho contido vira dignidade; a raiva domada vira coragem e disposição para agir; e o descanso na medida certa repara as forças, em vez de virar preguiça.

Numa leitura, isso ajuda a não ler O Diabo só como ameaça. Numa pergunta sobre ambição, desejo ou capacidade de convencer, a carta pode indicar uma força real, e a questão é quem está conduzindo quem.

Ninguém segura as cordas

Um detalhe da cena do Burdel pede atenção: as cordas das duas criaturas não estão na mão da figura central. Vão até um anel no pedestal. As mãos do Diabo estão ocupadas com outras coisas.

Uma forma de ler isso, sem forçar a imagem, é que a prisão da carta não depende de alguém puxando. As criaturas estão presas a um ponto fixo, e com as mãos livres. Wirth, por outro lado, lembra que a desordem do Diabo nunca é definitiva: quando as cartas são postas em duas fileiras, a Justiça, o VIII, fica acima dele, e ele continua sujeito à lei que ela aplica.

Fascínio, intriga e cobiça

Na lista de Wirth estão o instinto e a impulsividade, o fascínio, a sugestão e a eloquência que perturba, e também a excitação dos apetites, as intrigas, as maquinações, os meios ilícitos e a cobiça em todas as formas.

Numa pergunta sobre alguém muito persuasivo, a carta pode indicar uma influência forte em jogo, sem dizer de quem nem com que intenção. Numa pergunta sobre um desejo que tomou conta, uma leitura frequente é olhar menos para o objeto desejado e mais para o que esse desejo está prendendo: tempo, escolhas, outras vontades.

E a mesma lista serve de espelho para quem pergunta. O poder de convencer e de mobilizar que a carta descreve também pode estar nas mãos de quem tira a carta, e a pergunta que ela deixa é para que esse poder está sendo usado.

Onde esta carta pode cair

Todo Arcano Maior entra em qualquer tiragem deste baralho, inclusive na que embaralha só os 22.

Os Arcanos Maiores costumam concentrar os temas mais amplos. Leve a sua pergunta para uma leitura.

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