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A Casa Deus

XVI · Arcano Maior · Tarot de Marselha

O alto da torre se abre sob uma chama que vem do céu, e duas figuras vão ao chão.

A Casa Deus fala do que se construiu além da medida: orgulho, presunção, ambição que não se sacia, apego ao que é só material, crescer mais do que se consegue sustentar e não saber a hora de parar. O que endureceu demais se desfaz. Em bom contexto, ela serve de aviso a tempo: prudência, recuo diante de riscos sem cálculo e o bom senso simples que evita a queda.

LA MAISON DIEV, e os outros nomes da torre

Na edição de Claude Burdel, de 1751, a carta se chama LA MAISON DIEV, com o V no lugar do U. O desenho mostra uma torre de tijolos com janelas, e o topo dela, uma coroa de ameias, está sendo arrancado por uma chama colorida que desce do alto, à direita.

Em volta da torre caem bolinhas de várias cores. Embaixo, duas figuras vão ao chão: uma de cabeça para baixo, com as pernas para o alto diante da torre, e outra de bruços, à direita.

O nome desta carta varia entre os baralhos do site. No Rider-Waite-Smith, o XVI se chama A Torre. O Lenormand também tem uma carta chamada A Torre, a de número 19, que é outra carta, de outro baralho. Aqui ela é A Casa Deus.

Oswald Wirth, em Le Tarot des imagiers du Moyen Âge, de 1927, registra que alguns tarots foram mais longe e trocaram a torre por uma imagem do inferno, com um monstro de focinho de porco que devora os condenados. A edição de Burdel mantém a torre e as duas figuras que caem.

Uma casa que se tomou por Deus

Wirth também dá atenção ao nome. Para ele, a Casa Deus é menos um templo, a casa onde Deus mora, do que um edifício divinizado: algo construído que passou a se tomar pelo próprio Deus.

É também, observa ele, o primeiro edifício que aparece no tarô. Wirth o compara à torre de Babel, levantada por quem só pensa em si, e lê nela tanto o corpo de cada pessoa quanto a sociedade que se constrói tijolo sobre tijolo.

Uma forma de levar isso para uma leitura é perguntar o que está sendo tratado como intocável. A carta costuma apontar para uma construção, um projeto, uma posição ou uma certeza, que cresceu a ponto de parecer que não pode cair.

Os cumes atraem o raio

No desenho que Wirth comenta, a chama é um raio que sai do Sol e decapita a torre. O Sol, para ele, é a razão que governa as pessoas e se opõe às extravagâncias delas. O que não tem razão de ser, diz Wirth, se condena ao desabamento, e azar de quem se esforça para subir muito alto sem desconfiar que os cumes atraem o raio.

Na lista de sentidos que ele dá à carta estão o orgulho, a presunção, a perseguição de quimeras, a ânsia de adquirir, a ambição que não se sacia, a expansão abusiva do que se possui, o endurecimento do que era flexível e vivo, e o erro de quem empreende acima das próprias forças e não sabe parar a tempo.

Numa pergunta sobre um projeto que cresceu depressa, a carta costuma ser lida como um alerta sobre o que já passou da medida, e não como sentença. Pode descrever uma estrutura que não aguenta o próprio peso, e a pergunta que deixa é o que ainda dá para reduzir antes da queda.

O aviso a tempo, com o bom senso de Sancho Pança

Wirth dá à carta um lado favorável que o catálogo guardou. Quando deixa de ser desfavorável, diz ele, a Casa Deus previne contra aquilo mesmo que ameaça: um medo salutar, a reserva, a timidez que protege de riscos sem cálculo, a simplicidade de espírito que desvia de tolices eruditas. E resume esse lado no bom senso comum, a sabedoria de Sancho Pança.

Numa leitura, esse lado pode aparecer quando a carta cai numa casa de conselho, como a casa O que fazer, na Ferradura. Ali, uma leitura frequente é a de recuar, reduzir o tamanho do passo ou desistir de uma aposta que ninguém calculou.

O que cai com a torre, e o que sobrevive a ela

Wirth dá um papel a cada uma das duas figuras. No desenho que ele comenta, a primeira é um rei que continua coroado na queda, e representa o espírito para quem a casa foi construída. A segunda, vestida de vermelho, é o arquiteto da torre, que desaparece junto com a obra. No Burdel, nenhuma das duas usa coroa.

Mesmo o arquiteto, diz Wirth, não leva tudo consigo. Ele constrói segundo um projeto que é mais antigo do que ele, e esse projeto continua depois que a construção cai.

Uma forma de ler as duas quedas é separar o que se perde com uma estrutura do que sobrevive a ela. Numa pergunta sobre algo que desmoronou, a carta pode indicar que a forma acabou, e que o que se aprendeu ao construí-la ainda está disponível.

Onde esta carta pode cair

Todo Arcano Maior entra em qualquer tiragem deste baralho, inclusive na que embaralha só os 22.

Os Arcanos Maiores costumam concentrar os temas mais amplos. Leve a sua pergunta para uma leitura.

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