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A Estrela

XVII · Arcano Maior · Tarot de Marselha

Sob um céu de estrelas, uma mulher nua derrama a água de dois jarros.

A Estrela é a esperança que ajuda a atravessar os dias difíceis com ânimo e bom humor. Fala de beleza, poesia, música, sensibilidade, ternura e compaixão, de uma confiança serena no que a vida ainda pode trazer e de intuições e pressentimentos. O avesso dessa doçura é a ingenuidade: sonhar em vez de agir, descuido, entrega passiva e uma curiosidade que abre o que devia ficar fechado.

Oito estrelas sobre quem derrama os jarros

Na edição de Claude Burdel, de 1751, o céu da carta tem uma estrela grande, de oito pontas amarelas e vermelhas, e sete estrelas menores em volta, amarelas, azuis e uma verde. Embaixo, uma mulher nua, de cabelo claro e longo, está ajoelhada à beira da água.

Ela segura um jarro em cada mão e derrama os dois. À esquerda, um pássaro preto pousa numa árvore; à direita, um arbusto pequeno cresce na margem.

Oswald Wirth, em Le Tarot des imagiers du Moyen Âge, de 1927, dá ao capítulo um título no plural, As Estrelas, e conta as mesmas oito. O número, para ele, remete à Justiça, o VIII, e a estrela grande é Vênus, a estrela da manhã, que reúne as sete menores numa só.

Uma jarra para a água parada, outra para a terra seca

No desenho que Wirth comenta, cada jarro tem uma função. De um, de ouro, sai um líquido quente que dá vida à água parada do lago; do outro, de prata, uma água fresca que fertiliza a terra árida. Os dois nunca se esgotam, e a rega constante mantém as plantas que crescem em volta.

Wirth abre o capítulo com uma frase que ajuda a ler a carta: a vida não é cruel em princípio, mas o objetivo dela não é o nosso agrado. Ela tem a tarefa dela e nos pede que cumpramos a nossa. A mulher da carta seria essa vida, uma deusa doce e bela.

Uma forma de levar isso para uma leitura é ver a Estrela como esperança que trabalha, e não só como consolo. Numa pergunta feita num momento difícil, a carta costuma falar de ânimo para continuar, mais do que de um alívio que chega sozinho.

Depois da encruzilhada do VI, um caminho aceito

Wirth lembra que, com as cartas postas em duas fileiras, a Estrela fica logo abaixo do Enamorado, o VI, e as duas marcam uma passagem. No VI, o rapaz ainda precisa escolher entre dois caminhos, como o jovem Hércules. No XVII já não há escolha a fazer: quem chega aqui se entrega às influências que o guiam.

Ele liga a carta à noite e ao sono. A noite traz conselho, diz Wirth, e às vezes quem adormece preocupado com uma decisão acorda com ela tomada, ou com a resposta que procurava parecendo evidente.

Numa pergunta que não se resolve à força, uma leitura frequente sugere deixar a questão descansar. A carta pode indicar que a clareza vem de confiar um pouco mais e de insistir um pouco menos.

Esperança, e o que ela pode deixar de fazer

A lista de sentidos que Wirth dá ao XVII traz a esperança, o entusiasmo, o bom humor e a coragem de suportar com leveza as misérias da vida, e também a poesia, as artes, a música, a sensibilidade, a ternura e a compaixão. Traz ainda os pressentimentos e as intuições.

Na mesma lista estão a inocência, a candura e a ingenuidade, o devaneio, o abandono e a negligência, a confiança que vira resignação e a curiosidade indiscreta, que Wirth associa à caixa de Pandora.

Numa leitura, a diferença costuma estar no que acompanha a esperança. Quando ela sustenta o esforço, a carta fala de ânimo; quando ocupa o lugar dele, fala de alguém esperando que as coisas se resolvam sem mexer nelas.

A primeira que só a soma exata alcança

Na Peladan de Marselha, a pessoa escolhe quatro cartas e a Síntese sai da soma dos números delas: até 22, o total é a própria carta; acima disso, somam-se os dois algarismos uma vez.

Nenhum total de quatro cartas passa de 82, e os dois algarismos de um número até 82 nunca somam mais de 16. Por isso, da Estrela em diante, nenhuma redução chega à carta. A Estrela só sai como Síntese quando as quatro escolhidas somam exatamente 17, o que pede quatro cartas de números baixos.

A Estrela de Marselha, As Estrelas do Lenormand

O Lenormand, outro baralho deste site, tem uma carta chamada As Estrelas, a de número 16 entre as 36 figuras dele. O nome é quase o mesmo, e a carta é outra, com desenho e sentido próprios.

O Rider-Waite-Smith também tem A Estrela, com o mesmo número XVII e outro desenho. Nenhuma leitura mistura baralhos: cada tiragem usa um só, e a carta que cai é sempre a do baralho escolhido. Esta página é a do Tarot de Marselha, e o nome do baralho vem no endereço antes do nome da carta.

Onde esta carta pode cair

Todo Arcano Maior entra em qualquer tiragem deste baralho, inclusive na que embaralha só os 22.

Os Arcanos Maiores costumam concentrar os temas mais amplos. Leve a sua pergunta para uma leitura.

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