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A Lua

XVIII · Arcano Maior · Tarot de Marselha

A Lua ilumina pela metade: dois cães uivam para ela, um lagostim espera na água e duas torres guardam o caminho.

Sua luz é a das aparências e da imaginação, que tanto inspira quanto engana. Fala de intuição e sensibilidade, e também de fantasias, preconceitos, credulidade e de enxergar as coisas sob uma luz falsa. No plano concreto, aponta buscas longas e trabalhosas, tarefas impostas e situações ambíguas. Pede cuidado com a falsa segurança, a lisonja e as ameaças que não passam de barulho.

Um rosto de perfil dentro do disco

Na edição de Claude Burdel, de 1751, a Lua é um disco cercado de raios, e dentro dele um crescente guarda um rosto visto de perfil. Em volta caem gotas coloridas, vermelhas, verdes e amarelas.

Embaixo, dois cães, um azul e outro cor de laranja, erguem a cabeça para o céu, cada um de um lado. Nas bordas da carta aparecem duas torres com ameias. Na parte de baixo, numa água escura, um lagostim aparece com as pinças voltadas para cima.

Oswald Wirth, em Le Tarot des imagiers du Moyen Âge, de 1927, lê as gotas junto com a carta de duas antes. Elas correspondem, diz ele, às bolinhas coloridas que caem em volta da Casa Deus, o XVI. Só que aqui vão da terra para a Lua, que toma sem devolver nada.

Meia luz, e a imaginação que engana

Wirth começa pela luz. A Lua ilumina pela metade e não deixa distinguir as cores: tinge tudo de cinza e azul e deixa o resto no escuro. É a luz da imaginação, diz ele, e quem enxerga só por ela vê as coisas sob uma luz falsa. Imaginamos primeiro e só depois tentamos raciocinar, construindo com lógica em cima de imagens equívocas.

Ele não despreza essa luz. Os poetas, diz Wirth, não inventam do nada, e mitos e contos populares carregam verdades profundas demais para serem ditas de forma direta. Rejeitar toda superstição com desdém, como fazem os que se julgam espíritos fortes, seria para ele outra fraqueza.

Numa leitura, isso ajuda a não tratar A Lua só como engano. Numa pergunta sobre uma intuição forte, a carta pode indicar algo verdadeiro por trás da impressão, ainda sem forma clara; numa pergunta sobre uma decisão, costuma pedir que se espere um pouco mais de luz antes de agir.

O lagostim, os cães e as torres

Wirth dá ao lagostim um papel inesperado. Ele devora o que apodrece no charco e é graças a ele que a água parada não fica venenosa. Anda para trás, porque o domínio dele é o passado, e troca de carapaça quando ela fica pesada demais. Wirth deseja que as crenças aprendam com ele a se renovar quando já cumpriram seu tempo.

Com as cartas em duas fileiras, lembra Wirth, a Lua fica abaixo do Papa, o V. O Papa reúne as crenças e as fixa em doutrina; o lagostim faz a seleção inversa, e come o que já não se sustenta diante do bom senso.

Os cães e as torres, para ele, guardam o caminho. Os cães latem para quem ameaça o que já é aceito, e as torres avisam o imprudente dos perigos da estrada. Quem passa entre os cães com passo firme, diz Wirth, não é mordido.

Buscas longas e segurança falsa

A lista de sentidos que Wirth dá ao XVIII começa pelas aparências e pelo que cai sob os sentidos, e segue pela imaginação, pelos caprichos, pelos erros e preconceitos, pela credulidade e pelo falso saber. Na vida prática, traz as viagens por água, as pesquisas longas e difíceis, o trabalho imposto, a situação equívoca, a falsa segurança, as armadilhas, a lisonja, o engano e as ameaças vãs.

Na mesma lista aparece o retorno a si mesmo e a conversão. A meia luz que confunde é também a que leva a olhar para dentro.

Numa pergunta sobre um trabalho ou um processo que se arrasta, a carta costuma descrever justamente isso: um caminho longo, com pouca visibilidade. Numa pergunta sobre alguém, pode indicar uma situação ainda pouco clara, sem apontar quem engana nem se alguém engana.

Três Luas no mesmo site

O Lenormand, outro baralho deste site, também tem uma carta chamada A Lua, a de número 32 entre as 36 figuras. O Rider-Waite-Smith tem a sua, com o mesmo número XVIII desta e outro desenho. São três cartas diferentes com o mesmo nome.

Elas nunca se encontram numa leitura, porque cada tiragem usa um baralho só. Esta é a Lua do Tarot de Marselha, e o endereço da página traz o nome do baralho antes do nome da carta justamente para separar as três.

Onde esta carta pode cair

Todo Arcano Maior entra em qualquer tiragem deste baralho, inclusive na que embaralha só os 22.

Os Arcanos Maiores costumam concentrar os temas mais amplos. Leve a sua pergunta para uma leitura.

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