A Justiça
VIII · Arcano Maior · Tarot de Marselha
Sentada no trono, a Justiça ergue a espada e segura a balança.
Ela é a ordem que dá estabilidade às coisas. Lembra que cada ato traz suas consequências e que o presente decorre do que já foi feito. Fala de lógica, julgamento seguro, imparcialidade, honestidade e disciplina; de uma decisão tomada, de uma regra de conduta, de método e exatidão. Pode indicar alguém que administra ou arbitra. Quando endurece, vira rotina, apego ao que sempre foi assim, discussão de detalhe e medo do novo.
JVSTICE, de frente e sem venda
Na edição de Claude Burdel, de 1751, o título da carta é só JVSTICE, sem o artigo que as cartas vizinhas trazem e com o V no lugar do U. A figura está sentada de frente, diante do espaldar do trono, com uma coluna alta ao lado e um barrete vermelho de pontas, marcado por um losango na frente. Numa das mãos, a espada fica de pé, com a ponta para cima; na outra, a balança pende com os dois pratos.
Os olhos estão abertos. Não há venda: esta Justiça vê o que está pesando.
Em Le Tarot des imagiers du Moyen Âge, de 1927, Oswald Wirth compara a Justiça à Imperatriz: a mesma pose rigorosamente de frente, o mesmo cabelo claro, as mesmas cores. Mas, diz ele, já não é a rainha do céu. Parece mais velha, os traços endureceram, e ela perdeu as asas ao descer para o mundo da ação. O trono dela, ao contrário do Carro, não sai do lugar: é pesado e preso ao chão.
A espada corta, a balança conserta
Wirth separa com cuidado o papel de cada instrumento. A espada é a da consequência: nenhuma violação da ordem fica sem resposta, embora nenhuma vingança seja exercida. O que acontece é o restabelecimento de um equilíbrio rompido, que vem cedo ou tarde.
A balança é o instrumento que conserta. As oscilações dela devolvem o equilíbrio, e tudo o que se faz, se sente ou se deseja pesa num dos pratos. Wirth tira disso uma lição: quem se dá aos outros acumula do lado bom, e ninguém é mais pobre do que quem se recusa a se dar.
Numa leitura, a carta costuma pedir que se olhe para a relação entre o que foi feito e o que está acontecendo. Não como castigo, e sim como conta: o presente decorre de escolhas, e uma decisão justa agora muda o que vem depois.
Wirth também lê na carta um ritmo. Toda fase de esforço, diz ele, precisa ser compensada por uma fase de repouso, e forçar a excitação sem pausa desequilibra. Numa pergunta sobre um período puxado, a carta pode indicar exatamente isso: o equilíbrio em questão pode ser o do tempo, entre o esforço e a pausa.
Método que endurece em rotina
A lista de Wirth começa pela lei, pelo equilíbrio e pela estabilidade, passa pela lógica, pelo julgamento seguro, pela imparcialidade, pela honestidade e pela disciplina, e chega à decisão tomada e à regra de conduta. Ele inclui ainda figuras concretas: quem administra, quem julga, quem é encarregado de manter a ordem.
O lado difícil está na mesma lista. O método vira minúcia, a discussão vira argúcia, e a ordem vira rotina, espírito conservador e medo do novo. É a Justiça que não erra porque não tenta nada.
O VIII administra o que o IV quer
Wirth põe a Justiça em par com o Imperador, o IV. O que seria do Imperador sem ela? O direito dele ficaria só no papel, e a vontade que dá início às coisas se perderia sem alguém que a recolha, a organize e a distribua com medida. Na leitura dele, o IV quer, e o VIII administra o que foi querido.
No desenho que Wirth comenta, os dois usam o mesmo colar trançado, que ele lê como sinal de uma ordem que não se rompe nem afrouxa. Os compromissos do Imperador, diz ele, obrigam tanto quanto as decisões fundamentadas da Justiça.
A Justiça que é VIII aqui e XI no Rider-Waite
O outro tarot deste site, o Rider-Waite-Smith, também tem uma carta chamada A Justiça, com espada e balança, e lá ela é o XI. A troca vale nos dois sentidos: A Força, que em Marselha é o XI, é o VIII no Rider-Waite. A carta de Burdel traz o VIII impresso, e Wirth, que segue essa ordem, põe a Justiça logo depois do Carro.
Aqui, o número muda a leitura de verdade. Na Peladan de Marselha, a pessoa escolhe quatro cartas e a Síntese sai da soma dos números delas. A Justiça entra nessa conta valendo 8, e só chega à Síntese por redução, porque nenhuma soma de quatro cartas dá 8 direto: é preciso um total como 26 ou 35, cujos algarismos somados dão 8.
No Rider-Waite a Peladan não soma, e as cinco cartas são sorteadas. As duas Justiças convivem no site em endereços diferentes, cada uma com o nome do seu baralho no caminho.
Onde esta carta pode cair
Todo Arcano Maior entra em qualquer tiragem deste baralho, inclusive na que embaralha só os 22.
Os Arcanos Maiores costumam concentrar os temas mais amplos. Leve a sua pergunta para uma leitura.
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