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O Eremita

IX · Arcano Maior · Tarot de Marselha

De manto e lanterna, um velho avança devagar, sondando o chão com o bastão.

O Eremita é a experiência que conhece o passado e se serve dele para preparar o que vem, sem pressa e sem parar. Fala de prudência, estudo profundo, silêncio, recolhimento e austeridade, e de um mestre capaz de orientar o trabalho alheio e perceber o que ainda está se formando. O lado sombrio é o fechamento: desconfiança, isolamento amargo, desânimo, ceticismo e a mesquinhez de guardar tudo para si.

A lanterna meio escondida no manto

Na carta de Claude Burdel, de 1751, o Eremita é um velho de barba e cabelo grisalhos, de capuz, voltado para a esquerda de quem olha a carta. Veste um manto azul largo sobre uma túnica verde. Com uma das mãos ergue uma lanterna, e um pano vermelho de forro claro sobe junto com ela e cobre parte da luz. Com a outra, apoia no chão um bastão comprido.

Oswald Wirth, no livro de 1927 sobre o tarô, Le Tarot des imagiers du Moyen Âge, dá sentido a esse pano que cobre a lanterna. O Eremita cobre a lanterna em parte porque não quer ofuscar olhos fracos demais para a luz. É o saber dele, que ele só deixa brilhar na medida do que precisa para se guiar.

Wirth acrescenta que essa luz não ilumina só a superfície: ela procura, entra e revela o que há dentro das coisas. E lembra Diógenes, que precisou de uma lanterna parecida para procurar um homem de verdade.

Nem a pressa do VII, nem a parada do VIII

Wirth abre o capítulo encadeando três cartas. O condutor do Carro, o VII, é um jovem impaciente para avançar; a Justiça, o VIII, amiga da ordem, segura esse avanço. O Eremita concilia os dois, evitando tanto a precipitação quanto a imobilidade.

É daí que vem a imagem do bastão. O velho sonda o terreno onde pisa, avança devagar, mas não para. Wirth insiste nas duas coisas juntas: a lentidão é prudência, e a continuidade é o que impede a prudência de virar paralisia.

Numa pergunta sobre prazo, a carta tende a não falar de rapidez. Uma leitura frequente é a de um avanço lento, que depende de experiência acumulada e de passos conferidos um a um.

Um mestre que escolhe a quem abrir a porta

Wirth separa o Eremita do Papa. O V fala a todos e fixa o que se deve crer. O IX não se dirige às multidões: só se deixa procurar por quem se arrisca a chegar até a solidão dele, e só abre o que sabe depois de ter certeza de que será entendido.

Na lista de sentidos que ele dá à carta estão a tradição, a experiência, o saber aprofundado, a prudência, o recolhimento, o silêncio e a discrição, e também o mestre capaz de dirigir o trabalho dos outros e de perceber o que ainda está em formação.

Wirth vê nele, ainda, quem prepara o futuro sem aparecer. Longe da agitação, o Eremita amadurece os próprios planos e guarda a vontade em vez de gastá-la, e o que foi acumulado com paciência age com força quando chega a hora. Ignorado pelos contemporâneos, escreve Wirth, ele se torna o artesão do que está por vir.

Numa pergunta sobre estudo, pesquisa ou uma orientação que se procura, a carta pode indicar alguém com experiência para ajudar, desde que a pessoa esteja disposta a ir atrás. Numa pergunta sobre uma decisão, costuma pedir um tempo de recolhimento antes da resposta.

Ampulheta, muletas e lanterna

Wirth registra que outros baralhos mudaram os atributos da figura. No tarot de Bolonha, diz ele, o Eremita é um patriarca alado que anda curvado sobre duas muletas, com uma bolsa na cintura; no jogo chamado de Carlos VI, ele segura uma ampulheta no lugar da lanterna. A edição de Burdel mantém a lanterna e o bastão.

As versões apontam para o mesmo tema por lados diferentes. A ampulheta fala do tempo, as muletas do peso da idade, e a lanterna do saber que ilumina o caminho. Uma forma de ler o Eremita é juntar as três: experiência que custa tempo e se usa para ver melhor.

Quando o recolhimento vira isolamento

O lado sombrio, na lista de Wirth, é o do temperamento fechado: taciturno, desconfiado, medroso, cético, desanimado. Numa leitura, costuma aparecer como isolamento que já não protege nada, ou como a recusa de passar adiante o que se aprendeu.

Uma forma de ver a diferença entre os dois lados é olhar para a lanterna. Enquanto ela ilumina o caminho de quem anda, o recolhimento serve para alguma coisa; quando fica só guardada, o saber que ela representa deixa de guiar alguém, inclusive quem a carrega.

Onde esta carta pode cair

Todo Arcano Maior entra em qualquer tiragem deste baralho, inclusive na que embaralha só os 22.

Os Arcanos Maiores costumam concentrar os temas mais amplos. Leve a sua pergunta para uma leitura.

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