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O Louco

Arcano Maior · Tarot de Marselha

Único arcano sem número, o Louco segue viagem com a trouxa no ombro, enquanto um bicho o alcança pela perna.

Ele representa o que escapa à razão e à medida: o desconhecido, o absurdo, o que ainda não tem forma. Na vida prática, marca um momento em que os impulsos e as influências de fora tomam a direção. O bicho que o alcança é a consciência do que foi feito, e o risco é seguir adiante sem medir consequências e sem se deter diante desse aviso. O bom senso, porém, pode voltar a qualquer passo do caminho.

LE MAT, sem faixa de número

Na edição de Claude Burdel, de 1751, é o único Arcano Maior sem faixa de número no alto. Embaixo vem o nome, LE MAT. A figura é um homem de barba, com um gorro de bobo de pontas e guizos, que anda para a direita com passos largos.

Num ombro ele leva uma vara com uma trouxa pendurada; com a outra mão, apoia no chão um bastão comprido. Atrás dele, um bicho azul se estica e o alcança pela perna. Ele não se vira para olhar.

Oswald Wirth, em Le Tarot des imagiers du Moyen Âge, de 1927, descreve a mesma ordem nos tarots antigos: as cartas vão numeradas de I a XXI, e vem uma última que se distingue de todas por não ter número nenhum.

O vigésimo segundo que vale zero

Wirth diz que o lugar do Louco é o vigésimo segundo, mas que o valor simbólico dele é zero: é o personagem que não conta. No capítulo sobre o método de Péladan, porém, ele dá ao Louco um número para a soma: o Louco, que não é numerado, conta 22.

O Tarot de Marselha deste site segue as duas coisas. No catálogo o Louco não tem número e vem depois do XXI. Na Peladan, em que a Síntese sai da soma das quatro cartas escolhidas, ele entra na conta valendo 22, e sai como Síntese quando as quatro somam exatamente 22.

O outro tarot do site, o Rider-Waite-Smith, também tem uma carta chamada O Louco, e lá ela é numerada como 0, antes do Mago. É a mesma figura de viajante em duas ordens diferentes, e cada página traz o baralho no endereço.

O bicho que morde a perna

No desenho que Wirth comenta, o bicho é um lince branco que morde a panturrilha do Louco. O lince enxerga longe, e Wirth o lê como a consciência lúcida e o remorso que acompanha as faltas cometidas.

O problema, diz ele, é que essa mordida deteria alguém capaz de discernimento, mas não detém o Louco: só o apressa. Mesmo assim, Wirth não dá o caso por perdido. Aos pés da figura, no desenho dele, há uma tulipa que não murchou, sinal de que quem perdeu o rumo pode recuperar o bom senso. No Burdel, o chão tem tufos de capim e nenhuma flor.

Numa leitura, a imagem pede que se olhe para o aviso que já chegou. Numa pergunta sobre uma decisão tomada no impulso, O Louco pode indicar que a consciência do que está em jogo já alcançou quem pergunta, e que ainda dá tempo de parar para ouvi-la.

O que fica além da medida

Para Wirth, o Louco representa tudo o que está além do que se pode entender: o infinito, o absurdo, o que não cabe na razão. O I e o XXI marcam o começo e o fim do que é real, diz ele, e a carta sem número previne contra o desvario de quem pretende ir além desses limites.

Ele fecha o capítulo com uma inversão. O sábio não procura o Louco fora de si: procura dentro, tomando consciência de quanto é pequena a personalidade que ocupa tanto espaço nas nossas preocupações. Aprendamos que não somos nada, escreve Wirth, e o tarô nos terá confiado seu último segredo.

Na lista de sentidos dele estão a passividade, a impulsividade e o abandono aos instintos, a incapacidade de resistir às influências de fora, a indiferença e a dificuldade de reconhecer os próprios erros. Numa leitura, costuma aparecer como um momento em que o rumo é dado por outra coisa, e a pergunta que a carta deixa é o que está conduzindo.

Onde esta carta pode cair

Todo Arcano Maior entra em qualquer tiragem deste baralho, inclusive na que embaralha só os 22.

Os Arcanos Maiores costumam concentrar os temas mais amplos. Leve a sua pergunta para uma leitura.

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